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"Não cobiço nem disputo os teus olhos, não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos, nem sei tão pouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos. Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo.
"
(Iniciação - Ademar Santos)

3 de outubro de 2015

Cotidiano 01 - A borrachona

Quem usa salto sabe que quando aquelas borrachinhas do salto saem é um tormento. Então aqueles saltos grossos ajudam muito na preservação do sapato, e as borrachas do salto quase nunca saem. Mas eu enfiei o salto grosso em um buraco do tamanho exato do salto, e a borracha deslocou-se, desatritou-se, ou o que quer que seja, praticamente como a rosca/rolha de um vinho/bebidas do tipo. Até o barulho foi igual. Mentira, nem tanto. Mas sim, na verdade não é uma borrachinha, é uma borrachona. Mas não saiu toda, ficou pendurada.

Fiquei andando, na verdade, fiquei batendo o pé na calçada tentado colocá-la de volta no lugar, mas não entrava, desisti quando vi que pessoas já olhavam. Então fui andando com aquilo mal embutido. Sempre conferia pra saber se ela ainda estava lá, com a esperança de chegar ao meu trabalho e colocá-lá de volta.

Até que uma hora, quase perto do trabalho, fui conferir, e ela não estava mais lá. Fiquei muito triste. Muito mesmo. O meu sapato tem dois meses de vida e nunca mais será o mesmo, foi o que pensei, e não me conformei.

Na hora do meu almoço, fui pra rua procurar. Iria fazer todo o percurso que fiz pra chegar ao trabalho. Parei com os seguranças e falei:
- Vocês viram uma borrachinha do meu salto por aí? - Exatamente assim. E claro que não viram.
Tive que explicar, não ia ficar andando olhando pro chão sem me explicar.
Fiz o percurso e achei a borrachona.
Achei.
Meus olhos brilharam.
Fui com os seguranças, mostrei a borrachona e falei bem feliz:
- Obrigada, ainda bem que não chutaram.
Mas não coloquei na hora, aquilo era impossível.
Fiquei andando sem a borrachona, mas felizona por estar com ela.
Quando cheguei em casa coloquei a borrachona com um martelo de carne, era o que tinha.
Fiquei mais feliz ainda.
Então fiquei pensando nessa minha felicidade e tristeza idiotas e não tinha como concluir algo diferente:
Pode voltar atrás de pequenas coisas que farão falta, sim.
Pode ficar triste por besteira, sim.
Pode ficar feliz por qualquer coisinha perdida que foi encontrada, sim.

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